Estar disponível já foi o maior atestado de eficiência que alguém poderia carregar no peito. O sujeito que respondia ao e-mail na madrugada era o herói da firma, a amiga que respondia no mesmo minuto era a personificação da fofura. Criamos o mito de que o afeto e a produtividade se medem pelo tempo de resposta. Quem estava em todas as rodas, redes e grupos parecia, afinal, superconectado.
Mas o tempo passa, a gente cansa, e a maturidade traz um choque de realidade.
Viramos reféns de um plantão que ninguém nos pediu para dar. O celular vibra na mesa, a tela acende na cabeceira, a notificação salta. É um convite, um meme, um drama. Aceitamos, sem perceber, a lógica de que estar acessível o tempo todo é o único jeito de continuar relevante.
Estamos em todo lugar, mas inteiros em canto nenhum.
O “não” anda em baixa, mas continua sendo uma palavra bem libertadora. Quem deixa para responder o trabalho na segunda-feira está dizendo sim à própria sanidade. Quem recusa a exposição constante está apenas lembrando que a vida não precisa virar story para ter valor.
Luxo é ter silêncio. Luxo é almoçar sem olhar para a tela. Luxo é a audácia de não responder na hora e a paz de conseguir colocar algumas fronteiras na rotina.
Não estou aqui está pregando o isolamento ou a indiferença. Viver em sociedade exige compromisso e afeto. Mas a verdade é que a disponibilidade sem freio empobrece o encontro. Quando a gente aceita tudo, o que realmente importa perde a voz.
Vale a pena resgatar aquela velha sabedoria de que há tempo para tudo. Tempo de falar e tempo de calar. Tempo de se mostrar e tempo de se recolher no próprio canto. Nesta era que transformou o exibicionismo em virtude, a maior sofisticação virou o direito de desaparecer de vez em quando. Não por descaso com os outros, mas por respeito a nós mesmos. O novo luxo não é ser inalcançável por vaidade, mas sim escolher onde e com quem a gente quer estar por inteiro. No fundo, dizer “não” para o mundo lá fora é só um jeito maduro de dizer “sim” para a nossa própria vida.

